sábado, 25 de fevereiro de 2012

Minha mãe do céu


















Cheiro de roupa passada a ferro.
Como se do ferro nascesse a verdadeira ternura das mães.
Essa quentura que abranda o sono. O abraço.
A cama foi purificada agora.
Apenas o silêncio do algodão sob a pele.
Manhã finalmente limpa.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Outro Carnaval

 
Fantasia
me cobre com teu
Carnaval.


Alegria
quem te viu já não enxerga,
é o fim da festa.


Mente fada madrinha,
encanta-me!
Meu olho está borrado.


A rua é alta
e já não consigo subir.
Circulo nas baixezas, nas porcalhadas
que cheiram mal e soam bem.


Quem tem ouvido que ouça.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cerca viva















Acarinhei a cerca de madeira.
Liquens, fungos floridos,
Uma textura inédita,
estranhamente macia.
Quase esqueci das farpas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A festa


























Os sentimentos flutuam como balões coloridos
em uma festa sem dono.
Tentamos alcançá-los para presentear nossas crianças.
Alguém chora escondido no banheiro.
O esconde-esconde traz sempre a surpresa de um novo encontro.
Rodamos, lembrando antigas cirandas
sempre que esquecemos de inventar novas brincadeiras.
O cansaço rouba o som dos sorrisos
e também a letra de qualquer assunto.
Tateamos o calor um do outro,
aspiramos essa candura,
e sopramos esperanças impronunciáveis à nossa volta.
Sobre esse sopro caminhamos agora.
De mãos dadas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Ode à Santa Teresa



















Olho a paisagem onde envelheci.
Estou muito velha agora.
Minha pele, de tão marcada,
já não inspira castigos.


Santa Teresa me olha com benevolência
e massageia meus pés
as suas ruas.
Ela fala em línguas estranhas,
mas seus silêncios não me enganam.


Ah, Teresa!
Abre as janelas sobre a minha vida.
Esconde tua irmã em becos seguros.
Mostra-me por onde subir ao santíssimo céu.


Santa Teresa dos Homens,
não me atire a primeira pedra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Há muito tempo


Risk & Shmoo
Os corpos choravam suores salgados de emoção.
As bocas se olhavam entreabertas, incrédulas
do gosto que se lhe ofereciam.
O som era de ritmos silenciosos.
Tudo muito quieto. Tudo muito bom.

No início tem o medo de doer, quando goza o coração. É isso que faz gemer.
Ai, ai, que medo!
Aí tem o tesão, infinito como ão.

Respiravam o ar pelos
pelos, pêlos, pêlos nus.
Odores de homem em cheiros.
Oh, dores que ardem são ardores.
Ai que não dói.
Nem quando se descascam as peles com as unhas.
Porque as cascas se vão, pra nunca mais.

No lugar do fim, uma parada.
Para, para, para continuar no caminho.
Caminha no ar
condicionado à paixão.

E assim, num bocejo, levitaram.
Esquecidos da gravidade de seus gestos,
os anjos caídos de amor.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Fosso
Um poço que se afoga em água

Como viver rachada
Como sobreviver e não tocar a ferida

Água me engole e cospe.
Saliva secreta o verbo

Todas as manhãs se apagam
Todo dia me é tomado
Toda morte mata e não mostra o pau
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