terça-feira, 14 de maio de 2013

Nem tudo que reluz é ouro


Acordei feliz, como seria impossível em um domingo. Coincidência ou não, A Felicidade Clandestina se escondia sob o edredom. Parecia até que também tentava se proteger daquela manhã fria.

Tememos os domingos e vamos a missa.
Não ri demais que vai acabar chorando...
Afinal, o riso é um gozo que escorre pela face.

Protegida e ainda morna acariciava o meu edredom, pesado como um velho cansado sobre mim. Sentia uma alegria de parque de diversões ali, na minha cama. Também havia uma certa culpa disfarçada no meio das cobertas. 
Mas naquele momento eu a serenei com um carinho de mãe.

Posso sim dar um colo a essa que me persegue.

Vai ficar aí dormindo até tarde? O dia está lindo. Lagoa, Parque Lage? E se vai ficar em casa vê se arruma suas coisas. O quarto da bagunça um dia vai virar escritório? E o quarto de empregada vai continuar daquele jeito? Não dá nem pra entrar ali...

Não adiantou ouvir seus gritos, Clarice. Tive que viver eu mesma essa mística do quarto de empregada. Chegar lá e vê-la assim, barata. Essa outra, reluzindo na gosma branca.

sábado, 11 de maio de 2013

Eu sou a gosma branca da barata morta.
Asa quebrada.
A língua que lambe a verdade selvagem,
claríssima.
Na varredura das horas
não há tempo.
E continuamos aqui esperando Godot.

domingo, 21 de abril de 2013















Faltam pernas
e o ar
para abraçar
o brilho no fundo do mar.

Então que venham as ondas
em bandejas de prata
espumando todos os meus buracos.

Na areia molhada
me aconchego no Gil
"nossa caminha dura".

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O gato e a janela

A Janela - José Boldt



















Temos tempo,
o céu se mistura à janela do quarto.

Temos tempo,
acarinho o gato na nossa cama.

Temos tempo,
minha mão cabe na sua instantaneamente.

Temos tempo,
para costurar lençóis puídos e afagos longos,
para embaçar os olhos e medir o medo.

Temos tempo,
guardamos a joia dos dedos famintos.

Temos tempo,
provamos as horas infinitamente.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Preta, luto.
















Puta preta parida.
Preta até a raiz dos brancos.
Luto.
E quem tira essa escuridão do meu colo?
Meu filho preto?
Luto.
Puta preta parida
Pranteia a puta que o pariu.
Luto.
Escava teus pelos.
Rosna dentes à mostra.
Morde a carne alheia
e quebra os próprios ossos em oferenda.
Luto.
O bico do peito a céu aberto
Luto.
A pele morta a comer os vermes.
Luto.
A mão estéril a procurar abrigo.
Luto.
Trepo em manhãs de inverno.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012
















O silêncio daquela mata era da casa de alguém.
Cheirava uma presença inacabada.
O silêncio daquela mata era a casa de alguém.
Vivo, habitado e fresco.
Tirei os sapatos para não impor àquela terra outros caminhos.
Folhas escuras apodreciam à minha passagem, sem perderem o viço.
Fada gorda de pés pequenos e leves,
mal tocavam o chão.
A lama envolveu os pés machucados
à flor da pele.
Quando morremos brotam flores da nossa pele.
A pele real é rosa carmim.
O rio crescia nos meus ouvidos e eu descia para recebê-lo em minhas pernas.
O rio. O buraco na rocha. O sexo da montanha.
(Como falta a às palavras!)
Escorria-me desfeita entre as pedras.
Era uma vez.
(silêncio)
Sentia a ausência do mundo no meu corpo.
E nesse tanto que faltava
ainda havia o resto de alguém.
Mesmo ido(a).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Vidro



Homens pequenos vivem engarrafados,
mensagens à deriva.

Decifra-me ó Porto Seguro,
me salva Terra!
Ancora-me os sentidos.
Só se pode andar sobre o imobilizado,
permanescente.

Navega homem de vidro:
vai partir.


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