segunda-feira, 16 de maio de 2011
Onde descansar os mortos
Depois do ódio alemão e do calor de Hiroshima,
caminhamos pela terra árida como se fosse um jardim.
Arrastamos nossos mortos até um lugar onde se podia avistar toda a devastação.
Encontramos finalmente um rio
assoreado por lixo atemporal.
Mas a água não precisa estar limpa, só precisa estar lá.
Descansamos nossos mortos na margem.
Pisamos o leito macio do rio.
As águas encardidas amolecendo os tornozelos.
Deitamos ali mesmo. A lama era a única cama possível.
A água a escorrer por nossos corpos em cachoeira.
Dormimos sonhos impecáveis até quase afogar.
E esperamos nossos mortos secarem ao sol
antes de cumprirem a missão sagrada de adubar o mundo.
domingo, 17 de abril de 2011
Laços e nós
domingo, 27 de março de 2011
Diante da escultura de um casal em Paraty
Corpos engordados no barro,
gandes, espaçosos.
Cabe até gente dentro deles.
Homem e mulher se abraçam na argila
e há espaço para os dois.
Afirmam-se dois.
Escoram-se.
O volume e o peso de seus corpos,
cheios de espaço,
nunca os deixaria cair.
O vazio é apenas uma paisagem interna.
gandes, espaçosos.
Cabe até gente dentro deles.
Homem e mulher se abraçam na argila
e há espaço para os dois.
Afirmam-se dois.
Escoram-se.
O volume e o peso de seus corpos,
cheios de espaço,
nunca os deixaria cair.
O vazio é apenas uma paisagem interna.
Atelier Dalcir - Paraty
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Partida
e uma dor fina me enche a boca de medo.
Mastigo seu beijo com cuidado
pra não quebrar.
O abraço
partiu-me inteira,
de dentro a fora.
Manca,
sustento minha cara
em raras aparições.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
O terceiro

De tudo que é
homem,
eu tomaria você.
Daria minha mão pela tua pele
verdadeiramente macia.
Seríamos pretos juntos,
como no início dos tempos.
Comeríamos um ao outro
generosamente.
Guardaria cada um dos teus cheiros
entre os dedos,
para aquecer minha garganta
seca pela tua sede.
Meu homem de comer e de beber.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Ano de plantar
Esse ano
vou plantar uma pessoa em mim,
no meu chão ferido,
agora pronto pra semeadura.
Quero ver essa gente
verdejando por aí sem medo,
florescendo às vezes
e morrendo sempre
no calor da briga.
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