quinta-feira, 16 de junho de 2011

Imperativa

Vocifera
Voz!
Fora daqui!
Vocifera
Fera!
Fere fora daqui!
Vocifera
Fora!
Aqui fere!
Fora daqui!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Onde descansar os mortos


Depois do ódio alemão e do calor de Hiroshima,
caminhamos pela terra árida como se fosse um jardim.
Arrastamos nossos mortos até um lugar onde se podia avistar toda a devastação.
Encontramos finalmente um rio
assoreado por lixo atemporal.
Mas a água não precisa estar limpa, só precisa estar lá.
Descansamos nossos mortos na margem.
Pisamos o leito macio do rio.
As águas encardidas amolecendo os tornozelos.
Deitamos ali mesmo. A lama era a única cama possível.
A água a escorrer por nossos corpos em cachoeira.
Dormimos sonhos impecáveis até quase afogar.
E esperamos nossos mortos secarem ao sol
antes de cumprirem a missão sagrada de adubar o mundo.

domingo, 17 de abril de 2011

Laços e nós



Laços se desfazem e refazem,
sempre belos e pouco confiáveis.
Nós não têm saída.
Prendem à força e
arrebentam na faca.
Cegos que são ao brilho da fita,
preferem calejar na corda.



domingo, 27 de março de 2011

Diante da escultura de um casal em Paraty

Corpos engordados no barro,
gandes, espaçosos.
Cabe até gente dentro deles.
Homem e mulher se abraçam na argila
e há espaço para os dois.
Afirmam-se dois.
Escoram-se.
O volume e o peso de seus corpos,
cheios de espaço,
nunca os deixaria cair.
O vazio é apenas uma paisagem interna.

Atelier Dalcir - Paraty

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Estou do outro lado do mundo.
Lá,
do avesso de mim,
sigo impávida
a atravessar pessoas.

Não há muro ou coração que guarde meu olhar ultramarino.
Muda, abocanho desconhecidos.

Hálitos estranhos sopram meu caminho
e um mapa grita em meus ouvidos,
anunciando façanhas
Espiraladas!


Partida



















Meus dentes sangram
e uma dor fina me enche a boca de medo.
Mastigo seu beijo com cuidado
pra não quebrar.
O abraço
partiu-me inteira,
de dentro a fora.
Manca,
sustento minha cara
em raras aparições.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O terceiro


De tudo que é
homem,
eu tomaria você.

Daria minha mão pela tua pele
verdadeiramente macia.

Seríamos pretos juntos,
como no início dos tempos.
Comeríamos um ao outro
generosamente.

Guardaria cada um dos teus cheiros
entre os dedos,
para aquecer minha garganta
seca pela tua sede.

Meu homem de comer e de beber.
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