terça-feira, 17 de abril de 2012



Todo dia é pequeno,
apodrecendo sobre montes de roupa suja.

Que noite de mínimos orgasmos. Ínfimas mãos. Inquebrantáveis.
Todo cheiro pequeno cheira mal.

Há fumaça nos olhos de cegos. Que refresco.
Quem olha pequeno é rei na terra imunda.

Tens sorte de ser pequeno.

terça-feira, 10 de abril de 2012















Minhas unhas pretas da tua pele.
Arrancaria cada uma delas se a dor fosse sua.

Minhas unhas secas pela tua carne.
Cortaria toda ela se a morte fosse minha.

Minhas unhas quebradas nos teus ossos.
Cavaria o corpo pela promessa de vivalma.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Presente de Alice


Tenho pra você
um presente
muito sério
e adiantado no tempo. 

É de você receber
e é de mim o medo
de como vai receber.

É de você
antes de ser pra você
e é de mim também.

E se é seu
não posso dá-lo a você.

Meu amor
a vista que tenho de você
feliz...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Minha mãe do céu


















Cheiro de roupa passada a ferro.
Como se do ferro nascesse a verdadeira ternura das mães.
Essa quentura que abranda o sono. O abraço.
A cama foi purificada agora.
Apenas o silêncio do algodão sob a pele.
Manhã finalmente limpa.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Outro Carnaval

 
Fantasia
me cobre com teu
Carnaval.


Alegria
quem te viu já não enxerga,
é o fim da festa.


Mente fada madrinha,
encanta-me!
Meu olho está borrado.


A rua é alta
e já não consigo subir.
Circulo nas baixezas, nas porcalhadas
que cheiram mal e soam bem.


Quem tem ouvido que ouça.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cerca viva















Acarinhei a cerca de madeira.
Liquens, fungos floridos,
Uma textura inédita,
estranhamente macia.
Quase esqueci das farpas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A festa


























Os sentimentos flutuam como balões coloridos
em uma festa sem dono.
Tentamos alcançá-los para presentear nossas crianças.
Alguém chora escondido no banheiro.
O esconde-esconde traz sempre a surpresa de um novo encontro.
Rodamos, lembrando antigas cirandas
sempre que esquecemos de inventar novas brincadeiras.
O cansaço rouba o som dos sorrisos
e também a letra de qualquer assunto.
Tateamos o calor um do outro,
aspiramos essa candura,
e sopramos esperanças impronunciáveis à nossa volta.
Sobre esse sopro caminhamos agora.
De mãos dadas.
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