sábado, 3 de dezembro de 2011

Fosso
Um poço que se afoga em água

Como viver rachada
Como sobreviver e não tocar a ferida

Água me engole e cospe.
Saliva secreta o verbo

Todas as manhãs se apagam
Todo dia me é tomado
Toda morte mata e não mostra o pau

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A história de uma morte

Femme - Louise Bourgeois




















A visão daquela mulher esquartejada me iluminou.
Ela jorrava o sangue de incontáveis guerras,
era o lugar de todas as dores,
tão forte que vencia até a dor de morrer.
Apocalíptica e desintegrada
como o Eco não viu,
cavalgada por todos os males,
corria como a besta atrás do rabo.
Endemoniada em suas correntes
e purificada pelo próprio fogo,
ela se juntou em suas cinzas
pra alimentar o mundo com seu desamparo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A historia de um laço de fita
















Era uma vez um laço de fita
que vivia pendurado pensando na vida.
Poderia amarrar os cabelos de uma menina
ou enfeitar seu vestido de baile.
Com um nó bem apertado
embrulharia seu presente de amor.
Mas como desfazer tão boa laçada?
Só mesmo a menina, que vive entre os fios
e sempre foi boa em desembaralhamentos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


Amanheci com o sol queimando no peito.
Como arde!
Ultravioletas derretem sorrisos
e esfolam as peles mais resistentes.
Não há proteção contra essa luz interna.
Intensa. De doer os olhos.
Não há sombra de mim ao meio-dia.
A pino, caminho em direção ao poente.
Renascer?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Depois de ler e ouvir o valter precisei escrever o valter.


valter hugo mãe

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Diante de ti estava como uma criança nascida sem certidão.
Todos os meus sentidos clamavam pelo teu nome.
Tua voz acarinhava minha pele curiosamente macia,
como que nascida para esse som.

Quem és tu, esse que esquarteja mulheres e profana as santas,
decepando a beleza de seu altar?

Na tua língua mãe
vivo a violência do Serapião,
ansiosa pelas tuas letras
como se essas tuas tetas
pudessem me deleitar.

Ó pá!
Ô pessoa do valter!
Corajosamente contornastes uma cintura calejada
até chegar à liquidez mais profunda do meu sexo
e ali navegar sua descoberta.
Enfiaste o português corpo a dentro,
com um tesão de fazer inveja às mais tristes putas.

(Gabriel, meu anjo, perdoa-me. Dê um tempo à tua cólera.
Apesar das tuas veias abertas, nunca serás apanhado em maquinações espanholas.)

sábado, 24 de setembro de 2011

Quando o mundo aperta


Quando o mundo aperta, meus olhos se espremem
ainda mais fortes,
transparentes a qualquer sensação.
De forma que eu choro,
bem no centro da minha garganta.
E minhas paredes apertam.
Bem ou mal minhas paredes apertam.
Choro no centro da minha garganta.
Afinal, onde está sua mão pra eu descansar a voz?

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sem título

















Formigas me arranham por baixo da pele.
Todos esses pequenos eus formigam, colonizando minha carne 
dessa estranha gente.
Assopra a fumaça morna de velas rezadas
por onde respira o formigueiro que trabalha em mim.
Quero a paz incensada dos templos.
De todos os tempos:
O imemorial.
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